Cobertura do Mercado de Florianópolis

Local
Florianópolis, Brasil
Ano
2013
Descrição

A proposta para a cobertura do Vão Central do Mercado Publico espelha a simplicidade arquitetônica do prédio histórico e evoca um dialogo urbano em comum com as atividades do passado, modificadas através do tempo e preservadas na essência das trocas humanas, acolhidas no aldeamento do seu Patio Interno.
A resposta simples – mas não simplista –, jovem e contemporânea do agora, oferece um desenho genuíno, descomplicado, que é enriquecido nos detalhes dos módulos independentes [guarda-sol/chuva invertido] e na conexão entre eles, que confere à solução o semblante de uma nuvem, pairando livre e respeitosamente, emoldurando o Mercado – tanto nas fugas visuais internas quanto nas perspectivas a partir da cidade. Tendo o skyline urbano como pano de fundo, delineia um ‘portal do tempo e do espaço’ entre a obra arquitetônica histórica e suas atividades características – patrimônio imaterial e primeiro – e o contemporâneo, a cidade do hoje, com suas alturas e velocidades.
Estruturalmente, essa humilde independência também se expressa na locação dos eixos dos pilares, esculpidos, que se afastam das portas das fachadas internas das alas do Mercado, encontrando o limite sensível entre a organização espacial – das circulações, estares e atividades de serviço ligadas aos boxes – e a preservação da clareza de leitura dos volumes e detalhes arquitetônicos do Conjunto. A autonomia reverenciosa que surge entre o novo e o antigo vai diretamente ao encontro do critério de transitoriedade do projeto, entregando-o inteiramente ao conceito de reversibilidade.
A correspondência desta solução para a cobertura do Vão Central do Mercado Publico se faz, igualmente, na medida que privilegia o investimento na qualidade de produção (materiais, fabricação e execução) de um projeto passivo, leve e transitório e não se fundamenta na onerosa complexidade tecnológica e na incerteza de manutenção de sistemas de mecanização e automação que reclamam projetos complementares sobrepostos – sujeitos a incompatibilidades das mais diversas – e demandam consumo de energia e de recursos. Além disso, a estética desta resposta franca ao espaço conciso, de delicada intervenção, que é o Patio Interno do Mercado, não se propõe a acumular camadas arquitetônicas prescindíveis e futuramente obsoletas.
A solução de material para cobertura, inicialmente idealizada com vidro, passou de ideal para discutível e finalmente impropria, sendo substituída pela membrana PTFE (politetrafluoretileno). A questão da alta manutenção – por requerer limpeza constante em função do aspecto ‘sujo’ de um material totalmente transparente – somada ao alto peso que requeria uma estrutura mais robusta composta por perfis não tao delicados e delgados e, por fim, o custo mais elevado do material e da mão-de-obra, refletido na estrutura como um todo, nos levaram a optar pela membrana translucida, consideravelmente mais leve, com tecnologia autolimpante – pelo próprio escorrer da água da chuva – de baixíssima manutenção, muito pouco ruidosa e que confere uma unidade material que responde a ideia de homogeneidade do elemento arquitetônico.
A materialidade apresentada pelo desenho e pelo emprego dos materiais – o aço e a membrana translucida – serve de contraponto a tectônica do Conjunto Histórico-Arquitetônico do Mercado Publico. A naturalidade da luz e da ventilação continua a alimentar a atmosfera do Patio Interno constantemente por entre as duas instancias arquitetônicas, contribuindo para a manutenção do ar da via publica que atravessa o Mercado. A cobertura, como uma nuvem, eh um passador, um filtro a radiação solar direta e ao encharcar da chuva – esta coletada, exclusiva e independentemente, pelas membranas, através dos pilares, até a base, onde encontra o novo sistema de drenagem e suas galerias pluviais. A iluminação artificial particular, direcionada exclusivamente para a nova armação, atribui leveza e transparência a intervenção, descolando-a ainda mais dos edifícios do Conjunto durante a noite e, de forma indireta, refletida na claridade dos elementos da estrutura, traz claridade ao Vão Central.


Em co-autoria com Alejandro Ortiz Sainz e Lucas Rezende Busato.